Do jornalista Rubens Lemos Filho em seu www.rubenslemos.com.br
A menina de 10 anos é a menina sem estrela da verdade trágica. É a imitação real de Daniela, a doce filha do escritor Nelson Rodrigues, que nasceu cega, virou tema de livro e recebeu amores ainda mais passionais pela dor que parecia perseguir o pai como mantra.
A menina de 10 anos, do Conjunto Nova Parnamirim, que perdeu avó e mãe, é um pouco minha, sua, nossa menina, nossa filha, nossa órfã, nosso grito miúdo por justiça ainda que seja bem tarde.
A menina sem estrela, de 10 anos, magrinha, em imagens rápidas, buscando refúgio na imensidão do vazio, é o retrato indefeso da solidão da insegurança. A menina que renasceu para padecer até sempre, de saudade.
A menina sem estrela, de patinete, indecisa, ferida no corpo, titubeando ao caminhar, para onde irá com seus mistérios ao longo da vida? Quem cuidará da menina e de suas lembranças de uma tarde cujo mistério o jornalismo da Band Natal começou a decifrar quando sai da casa um misterioso homem, como um fantasma de romances esquecidos em sebos?
A menina de 10 anos, a menina sem estrela, é uma convocação, grito calado para que todos os homens e mulheres de vergonha reflitam sobre o que falta mais acontecer com as famílias dessa terra.
Uma senhora sexagenária, uma mulher de 36 anos, mortas a golpes de arma branca, que nas velhas coberturas policiais, representavam a tradução radiofônica dos golpes de faca, facão, tesoura, estilete, lâmina.
Quem matava assim, no meu tempo de repórter imberbe, matava por ódio, golpeava por despeito e vingança, inveja e rancor. Quem matava assim, guardava os piores instintos na mente.
Lembro demais a análise psicológica dos assassinos portadores de “objetos perfurocortantes “, feita com minúcia pelo delegado José Nunes, uma inteligência rara, espírito de detetive, elegante e montador de quebra-cabeças de sangue, racional em sua sala na velha secretaria de Segurança Pública, prédio histórico e abandonado na Ribeira.
A menina sem estrela, de 10 anos, não terá de volta o afeto assassinado. Que seja resgatada em seu futuro e siga sua vida dentro do que ainda possa ser considerado normal para quem testemunhou cenas tão bizarras.
Que se convoque Jules Maigret, o inspetor francês, com seu charuto indefectível, Maigret, do escritor belga Georges Simenon. Que Maigret salte das velhas páginas mofadas para salvar a menina sem estrela.
PS. No dia 8 de maio de 2012, no Bairro de Nova Parnamirim, Grande Natal, foram encontrados os corpos de Olga Cruz de Oliveira Lima,61, e Tatiana Cristina Cruz de Oliveira Lima,36. Ambas esfaqueadas e torturadas. A menina de 10 anos, filha de Tatiana, conseguiu escapar, mesmo agredida.
